Feminismo: o princípio da ‘febre’ trans?

Nos anos recentes, muitas vozes se começaram a insurgir contra o que consideram um certo ‘extremismo’ do activismo transgénero, acusando as suas reivindicações de estarem a levar a um retrocesso nos direitos já conquistados pelas mulheres.

Há até quem argumente – por vezes com ironia – que se trata do “patriarcado”, que surgiu agora com uma nova face e com novos estratagemas, para mais uma vez secundarizar as mulheres.

Este debate intensificou-se com situações muito mediatizadas, que geraram uma onda de contestação: foi o caso de atletas americanos (homens biológicos) que foram aceites em competições femininas, ou a criação de casas-de-banho “mistas” nas escolas, ou até mesmo a entrada de mulheres ‘trans’ nos famosos concursos das ‘misses’. Em Portugal, por exemplo, o facto de Marina Machete, uma mulher transgénero, ter vencido o concurso de Miss Universo Portugal, suscitou um coro de críticas, muitas vindas da ‘direita’, mas também de outras figuras como Miguel Sousa Tavares, originando polémica até na comunicação social.

De facto, muitos vêem a prepotência e a intransigência do movimento trans como um infeliz acidente, algo que degenerou e acabou mal, mas começou com reivindicações justas. Agora, são cada vez mais os que ressentem o ‘transactivismo’, considerando que foi longe de mais e que tomou de assalto a própria agenda LGBTQ+, ‘atropelando’ também a causa feminista.

No entanto, se tivermos em conta as ideias defendidas por conhecidas ideólogas feministas, como Simone de Beauvoir, Judith Butler ou Shulamith Firestone, percebemos que a sua ideologia já continha a semente que acabaria por dar origem ao movimento radical transgénero.

O feminismo é, justamente, o movimento ‘maior’ que fez brotar todos estes movimentos minoritários, subversivos e anticientíficos, que negam a biologia em nome de uma suposta “libertação”. E que, para espanto de muitos, no seu estágio actual, negaram até a própria existência da mulher, apagando-a totalmente ou relegando-a para segundo plano.

O fanatismo trans não é, portanto, e ao contrário do que se possa pensar, a antítese do feminismo, nem o seu inimigo natural: é a consequência lógica da sua doutrina.

De facto, um olhar mais atento permite constatar que não há qualquer conflito essencial e insanável entre o activismo LGBTQ+ e o movimento feminista; pelo contrário, são como dois irmãos gémeos, dois frutos da mesma árvore. Ou, melhor dizendo, o feminismo é a “mãe” do transactivismo e do radicalismo LGBTQ+.

Há décadas que várias feministas de proa começaram a renegar as mulheres, ao alegarem que ser mulher (ou homem) é apenas uma construção social, uma ‘performance’, e que todas as fases naturais biológicas associadas ao sexo feminino (menstruação, puberdade, gravidez) são constrangimentos que devem ser eliminados para que se dê a verdadeira “libertação” da mulher.

Aliás, a negação das dimensões biológica e científica daquilo que é ser uma mulher está bastante evidenciado na famosa frase de Simone de Beauvoir, uma das maiores referências do feminismo, que na sua ‘bíblia’ feminista, “O Segundo Sexo”, afirmou que Não se nasce mulher; torna-se mulher.

Esta rejeição de qualquer determinismo biológico, que foi levada ao extremo pela teórica feminista ‘queer’ Judith Butler, faz parte do esqueleto ideológico tanto do feminismo como do radicalismo transgénero.

Assim, a febre inquisitorial que se alastrou com o activismo trans – em que uma “mulher” foi reduzida a “uma pessoa que menstrua”, ou apenas a alguém que se identifica como tal – é o produto final e acabado da ideologia feminista; a sua concretização plena. E o feminismo foi apenas o seu prelúdio.

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